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Camila MoraisPSICÓLOGA · CRP 04/55610

Os cinco estágios do luto não existem — e por que isso importa

Camila Morais · Psicóloga, CRP 04/55610

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Negação, raiva, barganha, depressão, aceitação. Se você perdeu alguém recentemente, é provável que já tenham te oferecido essa lista — às vezes com a melhor das intenções, às vezes como cobrança.

O problema é que esse modelo nunca descreveu o luto.

De onde a lista veio

Elisabeth Kübler-Ross publicou os cinco estágios em 1969, no livro Sobre a morte e o morrer. O que ela observou foram pacientes terminais — pessoas diante da própria morte, não pessoas enlutadas pela morte de outra. São experiências relacionadas, mas não são a mesma coisa.

A lista migrou de um contexto para o outro, virou senso comum, entrou em material de treinamento, em livro de autoajuda, em roteiro de novela. E, nesse caminho, ganhou uma rigidez que a autora não tinha proposto. Anos depois, a própria Kübler-Ross esclareceu que os estágios não eram uma sequência obrigatória nem uma prescrição, e manifestou pesar pela forma como foram simplificados.

O que a pesquisa encontrou

Quando pesquisadores foram verificar empiricamente se pessoas enlutadas passam por esses estágios, na ordem proposta, o padrão não apareceu.

Os estudos de acompanhamento que seguiram pessoas ao longo de anos após uma perda encontraram outra coisa: não uma sequência comum, mas trajetórias diferentes. Uma parte considerável das pessoas apresenta o que a literatura chama de resiliência — sofrimento real, mas funcionamento preservado ao longo do tempo. Outra parte apresenta sofrimento intenso que diminui gradualmente ao longo de meses. Uma parcela menor desenvolve um luto que se prolonga e não cede sozinho.

Nenhuma dessas trajetórias passa por cinco caixas em ordem.

Por que isso importa na prática

Um estudo publicado em 2021 analisou como os estágios do luto são apresentados na internet. A conclusão foi que a representação imprecisa do modelo pode fazer a pessoa enlutada sentir que está enlutando errado — e pode levar quem está ao redor a oferecer um apoio que não ajuda.

É isso que a lista produz quando vira régua. Você não sentiu raiva? Está reprimindo. Voltou a sentir falta depois de ter "aceitado"? Regrediu. Riu no velório? Negação.

Nada disso procede. Oscilar entre a dor e a vida comum não é incoerência — é como o processo funciona. Sentir alívio não anula o amor. Não sentir raiva não significa que algo ficou mal resolvido.

O que colocar no lugar

Os modelos que sustentam a clínica hoje descrevem o luto como um processo com movimento, não com etapas. A pessoa oscila entre se voltar para a perda e se voltar para a vida que segue, e essa alternância é justamente o que permite atravessar. Há também toda uma linha de trabalho sobre reconstrução de sentido, e sobre como o vínculo com quem morreu continua existindo — em outro formato, não como problema a ser eliminado.

Se você quiser uma régua, é essa: não existe forma certa. Existe a sua, e existe a pergunta de se ela está te permitindo seguir vivendo.

Quando vale procurar ajuda

A maioria das pessoas atravessa o luto sem tratamento. Mas há situações em que o sofrimento se organiza de um jeito que não cede com o tempo: saudade intensa e persistente, dificuldade de retomar atividades, sensação de que a vida perdeu sentido, e isso se mantendo por muitos meses a fio.

Existe tratamento específico para esses casos, com evidência de eficácia — e é importante saber que ele funciona de forma diferente do tratamento para depressão. Procurar avaliação não significa que você tem um transtorno. Significa descobrir em qual situação você está.

Este texto tem finalidade informativa. Ele não faz diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Se algo aqui descreveu o que você vive, converse com um psicólogo ou médico.

Referências

  1. Kübler-Ross, E. (1969). On Death and Dying. Macmillan.
  2. Avis, K. A., Stroebe, M., & Schut, H. (2021). Stages of grief portrayed on the internet: a systematic analysis and critical appraisal. Frontiers in Psychology, 12.
  3. Bonanno, G. A., et al. (2002). Resilience to loss and chronic grief: a prospective study from preloss to 18 months postloss. Journal of Personality and Social Psychology, 83(5).
  4. Bonanno, G. A., Wortman, C. B., & Nesse, R. M. (2004). Prospective patterns of resilience and maladjustment during widowhood. Psychology and Aging, 19(2).
  5. Stroebe, M., & Schut, H. (2010). The Dual Process Model of coping with bereavement: a decade on. Omega, 61(4).
  6. Shear, M. K., et al. (2005). Treatment of complicated grief: a randomized controlled trial. JAMA, 293(21).