Por que você ri num dia e desmorona no outro
Você passou a manhã resolvendo coisas, riu de alguma bobagem, até esqueceu por algumas horas. À noite, culpa. Como pôde? Duas semanas depois, um pacote de biscoito no supermercado te derruba no meio do corredor.
Isso não é incoerência. É como o processo funciona — e existe um modelo que descreve exatamente esse vaivém.
Duas frentes ao mesmo tempo
Em 1999, dois pesquisadores holandeses, Margaret Stroebe e Henk Schut, propuseram uma forma diferente de entender o luto. Em vez de etapas, eles descreveram dois tipos de trabalho que a pessoa enlutada precisa fazer — e que competem pelo mesmo dia.
De um lado, o que eles chamaram de orientação à perda: chorar, sentir falta, revisitar lembranças, olhar fotos, conversar sobre quem morreu, sentir a ausência doer.
Do outro, a orientação à restauração: lidar com as coisas que a morte mudou. Resolver burocracia, assumir tarefas que eram do outro, voltar ao trabalho, aprender a fazer sozinho o que se fazia a dois, construir uma rotina nova.
As duas são necessárias. Nenhuma das duas pode ocupar o dia inteiro.
A oscilação é o mecanismo
O núcleo do modelo está justamente no movimento entre as duas frentes. A pessoa se volta para a perda, depois se afasta dela; mergulha, depois emerge. E essa alternância não é fuga nem falta de amor — é o que torna o processo suportável.
Ninguém sustenta dor máxima de forma contínua. O organismo alterna porque precisa alternar. Rir num velório, se distrair com uma série, dormir bem uma noite: tudo isso é a fase de afastamento fazendo o trabalho dela.
E o inverso também vale. Quando você está resolvendo a papelada e de repente não consegue continuar, não é fraqueza — é a outra frente pedindo espaço.
Por que isso alivia
Porque desmonta a cobrança mais comum entre pessoas enlutadas: a de que estar bem em algum momento significa não ter amado o suficiente, ou já estar esquecendo.
Ninguém acusa uma pessoa de não amar por ela dormir. O descanso da dor funciona da mesma forma. Você não está traindo ninguém quando consegue respirar.
E, do outro lado, também desmonta a cobrança de quem está em volta: aquele comentário de que "já faz um tempo" ou "você parecia melhor". A oscilação não é linha reta, e voltar a sentir intensamente não significa ter retrocedido.
Cada pessoa oscila do seu jeito
Algumas pessoas passam muito mais tempo na orientação à perda. Outras se jogam no prático e mal conseguem parar. As duas coisas são formas de atravessar, e não existe proporção correta.
O sinal de alerta não é passar mais tempo de um lado — é ficar preso em um deles sem conseguir sair. Quem não consegue de jeito nenhum se voltar para a perda, e quem não consegue de jeito nenhum se afastar dela, tendem a ter mais dificuldade ao longo do tempo.
O que fazer com isso
Nada, principalmente. O modelo não é um exercício — é uma descrição.
Mas serve para uma coisa concreta: quando a culpa aparecer por você ter tido um dia bom, ou quando alguém sugerir que você deveria estar melhor a essa altura, você tem agora uma resposta que não é opinião.
Referências
- Stroebe, M., & Schut, H. (1999). The Dual Process Model of coping with bereavement: rationale and description. Death Studies, 23(3).
- Stroebe, M., & Schut, H. (2010). The Dual Process Model of coping with bereavement: a decade on. Omega, 61(4).
- Stroebe, M., Schut, H., & Stroebe, W. (2005). Attachment in coping with bereavement: a theoretical integration. Review of General Psychology, 9(1).