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Camila MoraisPSICÓLOGA · CRP 04/55610

Quanto tempo dura o luto?

Camila Morais · Psicóloga, CRP 04/55610

É a pergunta mais feita sobre o assunto, e quase sempre a pior respondida. Um ano, dizem alguns. Seis meses, dizem outros. A verdade é que ninguém deveria responder com um número.

O que os estudos acompanharam

A melhor evidência sobre isso vem de pesquisas que acompanharam as mesmas pessoas ao longo de anos — algumas começando antes da perda acontecer.

O que esses estudos encontraram não foi um prazo, e sim trajetórias diferentes convivendo na mesma população.

A mais comum é a de resiliência: sofrimento real e intenso no início, mas com funcionamento preservado ao longo do tempo. Não é ausência de dor, e não é frieza. É a capacidade de continuar vivendo enquanto se sofre — e ela é mais frequente do que a cultura em torno do luto costuma admitir.

Outra trajetória é a de recuperação: sofrimento elevado que vai diminuindo gradualmente ao longo de meses.

E há uma trajetória de luto prolongado, em que o sofrimento intenso se mantém e não cede sozinho. Ela existe, é minoria, e é a que se beneficia de tratamento.

Por que o número engana

Quando alguém diz "dura um ano", está confundindo duas coisas diferentes.

Uma é quanto tempo a dor aguda leva para perder intensidade — e isso varia enormemente conforme quem morreu, como morreu, o que aquela pessoa representava e o que sobrou de rede de apoio em volta.

A outra é quanto tempo a saudade dura. E essa resposta é: não acaba. O vínculo com quem morreu continua existindo, em outro formato. Isso não é sintoma, e a clínica atual não trabalha com a ideia de romper esse laço.

Sentir falta dez anos depois não significa luto mal resolvido. Significa que você amou alguém.

Quando o tempo vira critério clínico

Existe um diagnóstico para o luto que se prolonga e passa a comprometer a vida de forma persistente. Ele entrou recentemente nos manuais — e vale saber que os dois principais discordam quanto ao prazo.

O manual da Associação Psiquiátrica Americana, em sua revisão mais recente, exige que a morte tenha ocorrido há pelo menos doze meses para adultos. A classificação da Organização Mundial da Saúde adota um limite mínimo de seis meses, exigindo que a resposta persista por período atipicamente longo para o contexto da pessoa.

Ou seja: quem afirma com segurança que "vira transtorno depois de seis meses" ou "depois de um ano" está errado das duas formas. Os critérios não são consenso, e a própria diferença entre eles mostra que tempo isolado não decide nada.

Em revisões que reuniram vários estudos, a estimativa é de que algo em torno de 7 a 10% das pessoas enlutadas desenvolvam esse quadro — variando conforme o tipo de perda e o critério adotado. É minoria, e é justamente para quem existe tratamento específico.

O que observar, em vez do calendário

Mais útil do que contar meses é olhar para o funcionamento.

A saudade continua intensa, mas você consegue trabalhar, se alimentar, dormir razoavelmente, manter vínculos? Então o tempo provavelmente não é o problema.

Você não consegue retomar nada, a vida parece ter perdido o sentido por completo, o pensamento fica preso em quem morreu de forma que impede qualquer outra coisa, e isso se mantém mês após mês? Aí vale procurar avaliação — independentemente de fazer cinco meses ou três anos.

Uma última coisa

Se alguém te disse que já passou da hora, essa pessoa está usando uma régua que não existe. E se você está se perguntando se demora demais, a pergunta melhor é outra: isso está te permitindo seguir vivendo?

Este texto tem finalidade informativa. Ele não faz diagnóstico e não substitui avaliação profissional. Se algo aqui descreveu o que você vive, converse com um psicólogo ou médico.

Referências

  1. Bonanno, G. A., et al. (2002). Resilience to loss and chronic grief. Journal of Personality and Social Psychology, 83(5).
  2. Bonanno, G. A., Wortman, C. B., & Nesse, R. M. (2004). Prospective patterns of resilience and maladjustment during widowhood. Psychology and Aging, 19(2).
  3. Prigerson, H. G., et al. (2021). Validation of the new DSM-5-TR criteria for prolonged grief disorder and the PG-13-Revised scale. World Psychiatry, 20(1).
  4. Lundorff, M., et al. (2017). Prevalence of prolonged grief disorder in adult bereavement: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 212.
  5. Killikelly, C., & Maercker, A. (2018). Prolonged grief disorder for ICD-11: the primacy of clinical utility. European Journal of Psychotraumatology, 8(6).
  6. Klass, D., Silverman, P. R., & Nickman, S. L. (1996). Continuing Bonds: New Understandings of Grief. Taylor & Francis.